O comércio de Sorriso não está apenas enfrentando a concorrência da internet. Está diante de uma mudança silenciosa na direção do dinheiro, do emprego e da riqueza produzida pela cidade.
Sorriso cresce, sua população aumenta e o poder de consumo acompanha esse movimento. Mas existe uma pergunta que quase ninguém está fazendo: onde esse novo consumo está sendo realizado? Em 2025, o comércio eletrônico brasileiro movimentou cerca de R$ 235,5 bilhões em 438,9 milhões de pedidos. Enquanto isso, comerciantes locais continuam pagando aluguel, salários, energia, impostos, estoque e logística para manter as portas abertas. A disputa, portanto, não é mais apenas entre lojas, é entre diferentes estruturas de custos e diferentes modelos de captura da renda do consumidor.
A internet oferece ao consumidor algo poderoso: comparação instantânea.
Em poucos segundos, é possível descobrir que determinado produto custa R$ 100,00 em uma loja local e R$ 75,00 em uma plataforma digital. Para quem compra, a decisão parece óbvia. Mas existe uma parte da conta que não aparece na tela do celular: a loja local mantém trabalhadores, paga fornecedores, contrata serviços, recolhe tributos e faz o dinheiro circular pela própria economia. A grande plataforma, por sua vez, opera com uma escala que permite diluir tecnologia, publicidade, armazenagem e logística em milhões de pedidos. É difícil para uma pequena empresa competir com uma estrutura desenhada para vender milhões de unidades.
E Sorriso começa a sentir essa transformação nas ruas. Uma declaração pública do presidente da ACES apontou aproximadamente 5 mil entregas diárias da Shopee no município, número que deve ser tratado como referência setorial, e não como estatística oficial auditada. Ainda assim, o dado é suficientemente expressivo para provocar uma reflexão. Se estiver próximo da realidade, estamos falando de uma quantidade extraordinária de mercadorias entrando diariamente na cidade sem necessariamente passar pelas vitrines, pelos estoques e pelos caixas do comércio local. O desafio não é impedir essas compras, mas compreender o tamanho dessa mudança.
Há uma ironia econômica nisso tudo: Sorriso produz riqueza em grande escala, mas pode estar transferindo uma parcela crescente do seu consumo para empresas que estão fisicamente muito distantes daqui. O município possui uma economia forte, população estimada em mais de 128 mil habitantes em 2026 (IBGE) e milhares de trabalhadores ligados ao comércio. Mas crescimento populacional não garante, sozinho, fortalecimento do comércio local. Uma cidade pode ficar mais rica e, simultaneamente, perder parte da capacidade de capturar essa riqueza dentro de seu próprio território. É essa contradição que merece ser discutida.
Como economista chego à conclusão de que o comércio de Sorriso não vencerá a internet tentando ser uma versão menor da internet. A resposta está em combinar aquilo que a tecnologia oferece com aquilo que uma empresa local pode fazer melhor: relacionamento, confiança, entrega rápida, assistência, troca imediata, conhecimento do cliente e presença digital. O comerciante precisa deixar de pensar na loja como um endereço e começar a enxergá-la como uma plataforma: vender pelo WhatsApp, Instagram e site, entregar no mesmo dia, permitir retirada imediata e utilizar os próprios estoques como vantagem competitiva. A loja física não precisa desaparecer, ela precisa se transformar.
No fundo, a discussão é maior do que preço. É sobre quem captura o valor de uma cidade que cresce. Se o consumidor economiza R$ 20,00 ou R$ 30,00 comprando pela internet, ele fez uma escolha racional para o seu orçamento, e não pode ser culpado por isso. Mas, se milhares de consumidores fazem a mesma escolha todos os dias, precisamos perguntar quanto dinheiro deixa de circular entre comerciantes, trabalhadores, prestadores de serviços e empresas de Sorriso. Talvez o verdadeiro desafio do comércio local não seja derrotar o e-commerce. Talvez seja convencer o consumidor de que, quando preço, qualidade e conveniência forem semelhantes, comprar de quem está ao seu lado também é uma forma de fortalecer a cidade que todos queremos ver crescer.

Elienai Carrias
Economista | Esp. em Sustentabilidade | Mestre em Economia
Palestrante | Consultor Político e Empresarial
*Texto de responsabilidade do autor e não representa a opinião do LeitorMT.
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ANEXOS (Dados, gráficos, tabelas, simulações)
Anexo 1: Entre 2024 e 2025 houve um crescimento de 15,3% no faturamento do e-commerce brasileiro, saindo de R$ 204,3 bilhões para R$ 235,5 bilhões. Com projeções de crescimento de 10,3% em 2026, chegando a R$ 259,8 bilhões (ABIACOM). Em 2025 o comercio eletrônico brasileiro realizou 438,9 milhões de pedidos e alcançou 94,2 milhões de consumidores, com ticket médio de aproximadamente R$ 536,60. O que representa uma média superior a 1,2 milhão de pedidos por dia no país.
Gráfico 1 – Faturamento do e-commerce brasileiro 2024-2025 e projeção para 2026.
Anexo 2: O e-commerce em Mato Grosso representa 1,57% do faturamento nacional de comercio eletrônico. Com isso, ao aplicar essa participação aos R$ 235,5 bilhões nacionais (2025), chega-se a aproximadamente R$ 3,70 bilhões (estimativa derivada não oficial) de faturamento do e-commerce mato-grossense. Ao utilizarmos o ticket médio nacional de R$ 536,60, esse valor corresponderia matematicamente a aproximadamente 6,89 milhões de pedidos no ano, ou cerca de 18,9 mil pedidos por dia no estado (ABIACOM, 2025).
Anexo 3: Construção de cenário matemático para o comercio eletrônico em Sorriso-MT (não são números oficiais). Com um ticket médio nacional de R$ 536,60 como referência (2025), a tabela a seguir não afirma quanto o município movimenta, mas ilustra cenários matemáticos.
Tabela 1 – Ilustração de cenários matemáticos para o e-commerce em Sorriso-MT.

Nota: Os cenários são ilustrativos e não representam faturamento efetivamente medido em Sorriso-MT.
Gráfico 2 – Simulação do valor anual caso Sorriso-MT tivesse diferentes quantidades de pedidos diários (ticket médio nacional de R$ 536,60).









