Planejamento climático, conservação do solo e eficiência produtiva ajudam a proteger a próxima safra de milho e uma cadeia que movimenta empregos, renda, tecnologia e serviços no município
Em Sorriso, Mato Grosso, o milho não encerra sua trajetória quando deixa a lavoura. Depois da colheita, o grão passa por armazéns, laboratórios, transportadoras e indústrias. Movimenta máquinas, oficinas, postos de combustíveis, empresas de tecnologia, estabelecimentos comerciais e diferentes prestadores de serviços. Por trás dessa cadeia estão trabalhadores e famílias cuja renda, direta ou indiretamente, acompanha o desempenho da produção agrícola.
É nessa relação entre campo e cidade que a sustentabilidade ganha uma dimensão mais ampla. Preservar o solo, utilizar os recursos com eficiência, reduzir desperdícios e planejar a produção diante das mudanças climáticas não são medidas que beneficiam apenas a propriedade rural. Elas ajudam a garantir a continuidade de uma atividade econômica que atravessa a porteira e influencia o cotidiano urbano.
A chegada de um novo El Niño coloca essa conexão novamente à prova. Confirmado em junho de 2026, o fenômeno deverá permanecer ativo durante uma parte importante do próximo calendário agrícola. Em Mato Grosso, onde o milho segunda safra depende da janela deixada pela soja e da umidade disponível no final do período chuvoso, o cenário reforça a necessidade de produzir com planejamento e responsabilidade. Mais do que uma resposta ambiental, o manejo sustentável torna-se uma estratégia para proteger a atividade agrícola, os recursos naturais e as oportunidades geradas na cidade.
Um fenômeno distante com efeitos dentro da lavoura
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam anormalmente mais quentes. Embora esse aquecimento aconteça a milhares de quilômetros das propriedades mato-grossenses, ele modifica a circulação da atmosfera e interfere na distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes partes do mundo.
Conforme o segundo boletim do Painel El Niño 2026–2027, divulgado em 31 de julho, os modelos indicam 100% de probabilidade de permanência do fenômeno até, pelo menos, o início de 2027.
O documento também aponta elevada probabilidade de o evento atingir intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão de 2026. Nesse período, as anomalias da temperatura da superfície do Pacífico Equatorial poderão superar 2°C.
Para o trimestre entre agosto e outubro de 2026, a previsão elaborada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) indica maior probabilidade de chuvas abaixo da média em grande parte do Centro-Oeste. As temperaturas devem permanecer acima da média em praticamente todo o país.
Isso não quer dizer, entretanto, que todas as regiões de Mato Grosso enfrentarão as mesmas condições. A quantidade, a frequência e a distribuição das chuvas podem variar até mesmo entre propriedades próximas. O impacto sobre as plantações também dependerá do estágio de desenvolvimento no momento da ocorrência de calor ou deficiência hídrica.
Por isso, a confirmação do fenômeno não representa uma previsão antecipada de quebra de safra. Ela funciona como um alerta para a necessidade de monitoramento, planejamento e adaptação.
O milho começa a ser definido ainda na soja
Em Mato Grosso, grande parte do milho é cultivada depois da colheita da soja. As duas culturas estão ligadas por uma sequência na qual o tempo exerce papel decisivo.
A soja costuma ser plantada no início do período chuvoso e atravessa boa parte do ciclo durante os meses de maior disponibilidade hídrica. O milho segunda safra, por sua vez, é semeado quando as chuvas naturalmente começam a diminuir.
Se houver irregularidade ou atraso das precipitações no começo da temporada, a implantação da soja poderá ser adiada. Como consequência, a colheita também poderá ocorrer mais tarde, empurrando o milho para uma janela de maior risco climático.
Quanto mais tarde a cultura for implantada, maior tende a ser sua exposição à redução das chuvas e às temperaturas elevadas durante fases decisivas do desenvolvimento.
A influência da época de semeadura sobre o desempenho do milho é reconhecida em estudos técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Com o avanço do ciclo para os meses mais secos, a disponibilidade de água pode diminuir e limitar o potencial produtivo da lavoura.
Nesse cenário, o planejamento do milho começa antes mesmo de sua semente chegar ao solo. Ele depende do acompanhamento das condições meteorológicas, do desenvolvimento da soja, da escolha dos híbridos e da organização de todas as operações dentro da propriedade.
O vice-presidente do Sindicato Rural de Sorriso, Adalberto Grando, acompanha um cenário que poderá influenciar a sequência das duas principais culturas agrícolas do município. A atenção está voltada não somente ao período em que o milho permanecerá no campo, mas às condições que definirão desde a implantação até a colheita da soja.
“O produtor precisa acompanhar o comportamento das chuvas desde o início do plantio da soja, porque qualquer atraso pode reduzir a janela ideal para o milho. Diante da previsão de um El Niño mais intenso, o planejamento será fundamental para diminuir os riscos e definir o melhor momento para cada operação”, destaca Grando.
Sustentabilidade começa no cuidado com o solo
Diante de um fenômeno climático de grande intensidade, produzir de forma sustentável também exige capacidade de adaptação.
Um solo bem estruturado, protegido e com maior capacidade de armazenar água oferece melhores condições para que as plantas atravessem períodos curtos sem chuva. Práticas como plantio direto, manutenção de palhada, rotação de culturas e cultivo de plantas de cobertura podem contribuir para reduzir a erosão, aumentar a infiltração da água e preservar a umidade.
Essas medidas não eliminam os efeitos de uma estiagem prolongada, mas ajudam a tornar o sistema produtivo mais resistente. Também reduzem a exposição do solo ao sol e ao impacto direto da chuva, preservando um recurso que levaria anos para recuperar-se depois de um processo intenso de degradação.
Nesse processo de conservação, a correção da acidez do solo também ocupa papel estratégico. Em áreas de Cerrado, onde os solos são naturalmente ácidos, a aplicação de calcário ajuda a criar condições mais favoráveis ao desenvolvimento das plantas. A calagem eleva o pH, reduz os efeitos tóxicos do alumínio e fornece cálcio e magnésio, nutrientes importantes para as culturas.
Quando realizada com base em análise do solo e recomendação técnica, a prática melhora o aproveitamento dos fertilizantes e permite obter maior eficiência produtiva nas áreas já cultivadas. Dessa forma, o aumento da produção pode ocorrer por meio do manejo adequado e da recuperação da fertilidade, sem depender da abertura de novas áreas. O uso correto do calcário, portanto, aproxima produtividade e responsabilidade ambiental ao preservar o solo e tornar mais eficiente a utilização dos recursos.
O manejo responsável também envolve o uso eficiente de sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis e máquinas. Com agricultura de precisão e acompanhamento técnico, é possível identificar diferenças dentro de uma mesma área e direcionar os insumos conforme a necessidade de cada talhão.
O objetivo não é somente ampliar a produtividade, mas aproveitar melhor os meios disponíveis. Evitar aplicações desnecessárias, reduzir perdas e organizar as operações contribui para diminuir custos e impactos ambientais.
Essa eficiência ganha importância em anos marcados pela incerteza climática. Quando o calendário fica mais apertado, erros na escolha da época de plantio ou no manejo podem comprometer uma parte do potencial produtivo que não será recuperada ao longo do ciclo.
Falta de água no momento errado pode reduzir a produção
Um dos principais riscos para o milho está na combinação entre temperaturas elevadas e deficiência hídrica nas fases mais sensíveis da cultura.
Estudos da Embrapa identificam a emergência, o florescimento e o enchimento dos grãos entre os períodos de maior necessidade de água. A ocorrência de estresse hídrico nessas etapas pode causar perdas expressivas.
O florescimento merece atenção especial. A falta de água pode prejudicar o desenvolvimento da planta, a polinização e a formação das espigas. O calor excessivo também pode afetar a viabilidade do pólen, a fecundação e a formação dos grãos.
O risco, portanto, não depende somente do volume total de chuva registrado durante o ciclo. O momento em que a precipitação ocorre pode ser tão importante quanto a quantidade acumulada.
O produtor rural Hilton Hedel acompanha há décadas as transformações da agricultura em Sorriso. Sua trajetória está ligada ao período em que o município expandiu a produção, incorporou novas tecnologias e consolidou o agronegócio como parte fundamental da economia local.
“Ao longo dos anos, aprendemos que o clima não está sob o controle do produtor, mas o cuidado com o solo e o planejamento fazem diferença. Manter a palhada, preservar a umidade e utilizar a tecnologia disponível são medidas que ajudam a lavoura a enfrentar melhor os períodos de falta de chuva”, afirma Hedel.
Mesmo com os avanços alcançados no campo, o clima permanece entre as variáveis sobre as quais o agricultor possui menor controle. É justamente por isso que medidas preventivas, acompanhamento técnico e conservação dos recursos naturais tornam-se cada vez mais relevantes.
O que acontece na lavoura não fica na lavoura
Quando uma safra enfrenta perdas, os impactos não se limitam ao produtor. A redução do volume colhido diminui a movimentação em armazéns, transportadoras, oficinas e empresas prestadoras de serviços. O caminho inverso também ocorre: bons resultados no campo mantêm ativa toda a estrutura necessária para transportar, classificar, armazenar, comercializar e transformar o milho.
A cadeia demanda motoristas, operadores de máquinas, mecânicos, eletricistas, agrônomos, técnicos agrícolas, laboratoristas, profissionais de tecnologia, vendedores e trabalhadores das indústrias. A renda gerada por essas atividades chega ao comércio, aos restaurantes, ao setor imobiliário e a outros segmentos urbanos. Assim, uma decisão tomada na lavoura produz reflexos muito além dos limites da propriedade.
É dessa maneira que o agro sustentável transforma a cidade, ao buscar equilíbrio entre produtividade, conservação ambiental e continuidade econômica.
Tempo seco pode ajudar a colheita atual
Os efeitos do El Niño não são necessariamente negativos em todas as etapas do ciclo agrícola.
O segundo boletim do Painel El Niño 2026–2027 aponta que as condições previstas para o trimestre entre agosto e outubro poderão favorecer a colheita do milho segunda safra no Centro-Oeste, incluindo as lavouras mais tardias.
A redução das chuvas pode facilitar a entrada das máquinas nas propriedades e diminuir problemas relacionados ao excesso de umidade nos grãos.
O cenário muda quando se observa o preparo das áreas e a implantação da próxima temporada. O mesmo boletim alerta que as temperaturas elevadas poderão intensificar a deficiência hídrica, aumentar a demanda por irrigação, afetar pastagens e recursos hídricos e dificultar a preparação das áreas agrícolas.
Um período mais seco, portanto, pode favorecer a retirada do milho que já atingiu a maturidade. Por outro lado, a falta de água durante o desenvolvimento de uma nova plantação tende a reduzir o potencial produtivo.
Essa diferença demonstra que a adoção de práticas sustentáveis também exige a compreensão de cada momento do ciclo e decisões fundamentadas em informações técnicas.
Tecnologia aproxima campo e cidade
A transformação provocada pelo agro também passa pela tecnologia. O acompanhamento por satélite, as estações meteorológicas, os sensores, os mapas de produtividade e os equipamentos capazes de realizar aplicações localizadas ampliaram a quantidade de informações disponíveis para a tomada de decisão.
Essas ferramentas ajudam a identificar falhas, monitorar o desenvolvimento das plantas e usar insumos de maneira mais precisa. Também criam espaço para profissionais de análise de dados, manutenção de equipamentos e assistência técnica. Em Sorriso, essa integração aproxima agricultura, ciência, indústria e tecnologia e amplia a necessidade de qualificação profissional e serviços especializados.
Produzir hoje sem comprometer o amanhã
O El Niño reforça uma realidade com a qual o produtor convive todos os anos: não é possível controlar o clima, mas é possível preparar melhor o sistema produtivo para enfrentar seus efeitos.
Preservar o solo, manter cobertura vegetal, diversificar culturas, acompanhar as previsões, utilizar os insumos com eficiência e respeitar as características de cada área são medidas que ajudam a construir uma agricultura mais resiliente.
Essas práticas protegem a capacidade produtiva da propriedade e contribuem para a continuidade de uma cadeia essencial ao município. Em Sorriso, campo e cidade não representam realidades separadas: a agricultura precisa da tecnologia, da mão de obra e dos serviços encontrados no espaço urbano, enquanto a economia local acompanha o movimento do plantio, da colheita e da transformação dos grãos.
Diante do El Niño, essa ligação torna-se ainda mais evidente. A sustentabilidade deixa de ser apenas um conceito e passa a fazer parte das decisões diárias: quando plantar, como proteger o solo, onde aplicar os insumos e de que maneira garantir a continuidade da atividade no futuro.
Ao cuidar da terra, o produtor não protege somente a próxima safra. Ele ajuda a sustentar uma rede que começa no campo, atravessa estradas, armazéns e indústrias e chega à vida de milhares de pessoas. Em uma cidade construída em estreita relação com a agricultura, o resultado de uma lavoura sustentável também é colhido longe dela.
Por Janaína Oliveira
Foto: Ney Pinheiro







